Era uma tarde abafada, e eu e a voluntária espanhola com quem divido as tarefas de marketing da english home onde estamos hospedadas resolvemos pegar a bicicleta da casa e conhecer os arredores da região. Tínhamos cerca de três horas até as aulas iniciarem, e era tempo suficiente para podermos desbravar um pouquinho aquele canto super deslocado do tal país comunista.A região de Ba Vi fica a 50 quilômetros de Hanoi, a capital, mas sequer sabemos direito o nome da cidade onde estamos hospedadas, menos ainda se é uma cidade ou uma vila. Interessa mais que ali vive uma gente simples, que é o retrato real do cotidiano vietnamita: homens e mulheres que trabalham nas suas pequenas ou médias lavouras onde plantam especialmente milho e arroz (e que os debulham mesmo em cima das calçadas no pátio de casa), e cultivam suas verduras, legumes e frutas – banana, manga, também uma espécie de maçã cor de rosa (rose aple), mas especialmente o abacaxi, que de repente perfuma umas partes da estrada que vamos cruzando com a bike meio capenga da casa (mas que serve otimamente ao propósito).

Atravessamos as ruelinhas dividindo o espaço com ciclistas locais com seus chapéus pontiagudos e sacolas na garupa, e também com motocicletas que se desviam e buzinam para pedir espaço. A cada cruzada com um local, um hello diferente. As crianças nas garupas das motos acenam e gritam hello, as senhoras que não sabem dizer oi em inglês acenam com o gesto mais gentil, homens, mulheres jovens, todas as idades: um hello atrás do outro, e quando não é o hello é um sorriso, um abano, uma gargalhada faceira, um olhar curioso. Não existe maneira de não se contagiar e ir espalhando hellos e riso para todos os desconhecidos.
O caminho que Alicia e eu percorremos nesse dia misturava características de uma cidade pequena e um pouco de zona rural. Costeamos vários campos de arroz, um rio, passamos por casas onde mulheres costuravam chapéus vietnamitas, por terras com plantações e uns trechos mais desertos onde nos acompanhavam alguns cachorros barulhentos.

Numa dessas cruzadas, já alguns quilômetros distantes da casa, um senhor nos avistou, parou a motocicleta no meio do caminho, desembarcou, pegou o celular e apontou para nós, gesticulando que gostaria de uma foto. Pediu que ficássemos mais perto uma da outra. Fizemos isso e posamos para a foto com um sorriso. Sim, talvez em qualquer outro lugar do mundo não aceitássemos, mas estávamos no interior do Vietnam, e não quero dizer com isso que não possa existir algum remoto risco em algum momento (somos mulheres), mas certamente não viria de um senhor que pediu pra tirar foto de duas estrangeiras bem no meio do seu bairro num longínquo país asiático. Foto feita, mais um sorriso, perguntou de onde éramos, mais uma foto e um aceno de tchau.
Andando um pouquinho mais, já no caminho de volta pra casa, Alicia quis parar em um local de onde ouvíamos alguma música tocando. Apontei o tradutor para a placa na frente do lugar. Um pórtico na entrada da construção indicava que era um centro cultural da “aldeia” – foi como o Google traduziu.
Estacionamos a bike e, com uma curiosidade meio tímida, ficamos espiando pela porta ao que parecia um ensaio de uma coreografia de dança de um grupo de idosos vietnamitas. As mulheres carregavam flores, os homens a bandeira do país. Quando nos viram na porta, imediatamente nos convidaram para entrar. Como a Alicia estava com uma câmera fotográfica – e eles não falavam inglês e nem nós vietnamita, eles fizeram o que puderam com gestos para nos dar a entender que gostariam de uma sessão de fotos. Alicia preparou a câmera, o grupo preparou as poses e rolaram cliques e risadas. Dois homens falavam um inglês precário e um deles puxou assunto e perguntou de onde éramos. Eu falei que era brasileira e ele contou que conheceu o Peru: “América, América“, dizia sorrindo. Sim, eles falam sorrindo.
Com a ajuda do tradutor conversei com as mulheres do grupo, que perguntaram de onde vínhamos e o que fazíamos ali, com uma curiosidade sempre cheia de riso. Disseram que eram idosas entre 70 e 80 anos que se encontram ali diariamente para socializar. O único senhor que falava um pouco de inglês nos convidou pra jantar na casa dele à noite e também pra voltar lá na tarde seguinte para assistirmos mais um pouco do ensaio. Nos despedimos e dissemos que tentaríamos voltar.

No caminho de volta – foram-se quase três horas em um respiro – Alicia segurava o celular com o mapa e uma menina com uma scooter nos parou para perguntar se íamos para Hanói (como somos estrangeiras, achou que estávamos perdidas). Não estávamos perdidas, tínhamos o mapa, mas mesmo assim deixamos ela dar as instruções sobre como chegar até a casa. Ela não só nos explicou cada parte do trajeto como nos acompanhou por um bom trecho, como para se certificar de que chegaríamos a salvo. Mais uma vez, em outra circunstância qualquer um acharia estranho. Mas estamos no Vietnam. O que comprova isso é que a menina da scooter não só nos acompanhou numa boa parte do caminho como também, em um momento, sinalizou que ia parar a scooter, estacionou na frente de uma banquinha simples no meio da estrada onde uma mulher vendia abacaxis, comprou uma sacola de abacaxis descascados e nos entregou. Assim. Um sorriso no rosto, as mãos estendidas entregando a sacola de abacaxis e o dedo indicador apontando o celular: ela queria uma foto com a gente. Fizemos a foto – primeiro com a Alicia, depois comigo, depois nós três. Agradecemos de novo, sorrimos e andamos.

Por aqui esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina. Dois dias depois, passeando pela ancient town que fica perto de onde estamos hospedadas, um homem passou por nós carregando algumas maçãs cor-de-rosa. Parou e nos ofereceu maçãs, sem trocar uma palavra. Mais uma vez poderíamos desconfiar (brasileiros desconfiam ainda muito mais do que europeus), mas estamos nesse país de riso e gentileza. Aceitamos e foi um ótimo lanche pós seis quilômetros de pedalada.
Eu já tinha lido sobre os vietnamitas serem um povo muito generoso, mas viver isso é completamente diferente. Aqui não se precisa muito pra entregar algo pro outro: é só um olhar e pronto. Generosidade gratuita: eles entregam hellos, sorrisos, maçãs, abacaxis e gentileza. As pessoas daqui não fazem isso esperando algo em troca. Pelo contrário, ninguém nos conhecia, e eles mesmo sabiam que muito provavelmente não voltariam a nos ver. Nem o senhor do clube de idosos, nem a menina da scooter que nos acompanhou e nos comprou abacaxis, nem o homem que nos ofereceu as maçãs. E eles não têm muito, são pessoas mesmo simples, vivem longe do luxo, mas o que têm estão dispostos a partilhar.
Para mim, que vim de uma temporada de dezoito meses em um país fechado, xenofóbico e conservador como Portugal, sentir essa conexão com pessoas que seguem literalmente o (perdoem o clichê) ‘fazer o bem sem se importar a quem’ é um tipo de afago, algo do tipo ‘a vida tem jeito sim’, ou ‘vamos acordar e viver bem esse troço aqui?’. É impossível viver uma experiência assim e voltar igual. Não tem como, depois disso, não olhar para a gente e tentar reencontrar o nosso lugar mais gentil dentro de nós.

Nossa! Muito emocionante! Me senti junto neste lugar, olhando, observando e admirando está pessoas humildes, gentis, com um calor humana incrível! Deus se manifestando nelas! Parabéns amada pelo texto! Excelente!
Que lindo esse relato, me senti vivendo esse momento com vocês 🥹✨️