Bom dia, inverno: o que Tamara Klink nos ensina sobre morar no caminho

Se um dia você ousar fazer algo muito diferente de tudo o que já fizeram, vão te chamar de louca. Talvez você ache que esteja. Mas é importante que você não ouça a todos e continue. Terminei de ler Bom dia inverno, de Tamara Klink (já é o livro mais vendido no Brasil). Era uma leitura que queria fazer desde antes mesmo de o livro sair do forno. É que a história da Tamara me atravessa em um lugar forte – assim como deve acontecer com boa parte das mulheres. 

bom dia inverno tamara klink

Tamara toca a gente na sua coragem. Antes dos 27 anos, foi a pessoa mais jovem da América Latina a cruzar o Oceano Atlântico sozinha. Na sua mais recente aventura documentada, acabou por se tornar a primeira mulher a passar o inverno no Ártico, isolada, dentro de um barco. Num mundo que desencoraja mulheres e meninas, Tamara resolveu literalmente navegar contra a maré (e contra muita gente que encontrou antes e durante o caminho, justamente tentando desencorajá-la). Com audácia – e mesmo assim um pouco de medo -, passou anos planejando a viagem, preparando a casa, organizando mantimentos e uma vida que deveria caber em um barco com 10 metros de comprimento.

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Foram oito meses entre icebergs, mar congelado, auroras boreais, tempestades e temporadas de sol e de escuridão. Foi tanto tempo sozinha que já não lembrava mais como era sorrir ou conviver com pessoas.

O livro de Tamara Klink entra nas classificações de relato de viagem, mas nada de relato de viagem romantizado (como ela mesma diz não gostar): aqui ela descreve os medos, os riscos, as dificuldades no planejamento e até o titubear na hora de levantar âncora e partir rumo ao inverno groenlandês.

Esse barco é minha casa, mas não tem fundação, tem asas. Eu moro no caminho. Meu endereço é o inverno

Lendo a Tamara a gente aprende sobre morar no caminho. Tendo como endereço o mar gelado e um tanto de solidão, a velejadora imprime nos seus diários infinitas reflexões que fazem a leitura ser ainda mais gostosa. Porque não só viajamos com ela nessa invernagem, contemplando auroras boreais, céus coloridos, neve em cristais, fazendo amizade com raposas e caçadores.  Ela também nos dá a chance de viajarmos na profundidade e na sensibilidade das suas camadas mais internas, abrindo a intimidade de reflexões sobre a vida que fazem a gente se identificar imediatamente. Como seria viver sem que ninguém pudesse nos ver? Sem precisar performar, vestir-se sem pensar em uma ocasião, gritar sem precisar se explicar?

Grito o mais alto que posso, sem medo de incomodar os outros. Fico acordada a noite toda procurando constelações. Caminho até as pernas doerem. Parei de tentar parecer alguma coisa para, simplesmente, ser (…)

Sem outros humanos, não sou mais o Outro. Experimento como é ser universal. Nem forte, nem fraca: sou o resultado dos meus gestos. Não sou mais meu rosto, minha idade, meu nome. Desaprendo a tentar caber.

Mas, indo mais a fundo, ao se encontrar com caçadores, caçar e pescar com eles, como é se deparar com as suas próprias contradições? 

Antes de chegar aqui, eu não comia animais. Mas convivo com meu lixo, e escolho minhas comidas menos pelo gosto ou pela convicção do que pela embalagem. Cada pacote de plástico vai viver mais tempo do que nós neste planeta, e parece mais errado comer arroz do que o bacalhau que pesquei com a linha. 

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Tamara reflete fortemente nas suas páginas o lugar da mulher na sociedade em que vivemos, inclusive comparando suas travessias com a do seu pai, que começou a velejar aos 28 anos, mais velho do que ela quando iniciou sua própria jornada. É que uma mulher que quer ser mãe, cedo ou tarde, vai se deparar com o conflito entre viver um sonho e o tempo hábil para poder vivê-lo e ainda viver a maternidade. Pensando que talvez queira experienciar a maternidade, Tamara escolheu começar a velejar mais jovem.

Digamos assim: se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas. 

(…)

Minha avó tinha razão quando disse: “Tenho medo que você esqueça como é ser feminina”. Acho que ela desejaria esquecer também se descobrisse como é bom não ter medo de estar sozinha, e ser livre.

Quantas vezes, afinal, deixamos de ser totalmente livres por um medo que não é realmente nosso, que nos é imposto? Quantas mulheres que vieram antes de nós podemos honrar quando conseguimos usufruir dessa liberdade e deixar o medo no lugar onde ele merece estar?

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foto: tamara klink

As reflexões não param aqui e eu poderia avançar nesse texto trazendo muitos trechos do tanto que amei neste livro. Mas penso que o mais interessante é que vocês também experienciem essa leitura: uma viagem inóspita, aprendizados constantes sobre coragem e resiliência, o frio na barriga velejando junto com a gente e,  ao mesmo tempo, um gosto de “casa no caminho”. 

Bom dia, inverno: os livros que acompanharam Tamara Klink durante a invernagem

Algo que gostei muito durante a leitura foi descobrir os livros que acompanharam Tamara nestes oito meses (sim, ela tem uma biblioteca na Sardinha 2). Por isso, reuni abaixo uma lista dos livros que ela leu durante a invernagem. Alguns aparecem citados em Bom dia, inverno; outros, ela contou em entrevistas que também fizeram parte desse período. 

Assim falou Zaratustra – Nietzsche

A obra acompanha Zaratustra, um sábio que percorre o mundo compartilhando reflexões sobre liberdade, moralidade e o potencial humano. É um dos livros mais influentes da filosofia moderna.

Grande sertão, Veredas – Guimarães Rosa

O ex-jagunço Riobaldo revisita sua vida no sertão brasileiro, marcada por conflitos, amores e profundas questões sobre destino, coragem e o bem e o mal.

Paratii entre dois polos – Amyr Klink

O navegador brasileiro – sim, o pai de Tamara –  narra a expedição do veleiro Paratii entre os polos Norte e Sul, compartilhando os desafios da navegação em alguns dos ambientes mais extremos do planeta.

North to the bight – Alvah Simon

O livro conta a experiência real de um navegador que passou um inverno inteiro preso no gelo do Ártico, vivendo sozinho a bordo de seu veleiro e enfrentando condições extremas.

The call of the wild – Jack London

Buck, um cão domesticado, é levado ao Alasca durante a corrida do ouro e aprende a sobreviver em um ambiente hostil. A história explora a força dos instintos e a adaptação à vida selvagem.

Nós: O atlântico em solitário – Tamara Klink

Sim, em um momento da viagem Tamara chegou a reler o próprio livro. Nesse, ela relata a travessia solo pelo Oceano Atlântico, compartilhando os desafios da navegação e as descobertas pessoais que surgem ao longo da jornada.

Odisseia – Homero

O clássico da literatura grega acompanha a longa viagem de Ulisses de volta para Ítaca após a Guerra de Troia. Pelo caminho, ele enfrenta monstros, tempestades e inúmeras provações antes de reencontrar sua família.

Bom dia, inverno – Tamara Klink

capa do livro bom dia inverno tamara klink

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado pela Companhia das Letras.

Você pode comprar o livro Bom dia, inverno, na Amazon, aqui neste link.

Update: a Netflix anunciou que vai lançar um documentário sobre a invernagem, com imagens feitas pela própria Tamara durante os oito meses na Groenlândia. Ainda não foi divulgada a data de lançamento do doc.

Podemos acompanhar as aventuras da Tamara no @tamaraklink.

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